Entrevista a Paula Pimentel, organizadora da iniciativa 40 Dias Pela Vida

Publicado a 22 outubro 2012

"Mesmo que nenhuma mulher desista de abortar, a oração é um fim em si mesmo"

Em que consiste a iniciativa?
A iniciativa nasceu nos EUA, em 2004.
Os 40 dias pela vida são 40 dias em que pessoas de várias religiões, que tenham como objectivo único defender a vida e defender as mulheres que sofrem com esta situação, se juntam para rezar num lugar simbólico, a porta da clínica dos Arcos, a maior clinica abortista de Lisboa, para se juntarem ao sofrimento destas mães e tornarem-se mais próximas das pessoas.

A oração faz duas coisas, por um lado torna melhores as pessoas que rezam e por outro que consigamos aproximar-nos mais do sofrimento das pessoas e não as julgar nem criticar. Se não tivermos este processo podemos cair na tentação de julgar as pessoas e não é isso que queremos, queremos apoiá-las e estarmos próximos delas.

Os 40 dias vêm das histórias bíblicas de pessoas que rezaram ao longo de quarenta dias.
Temos um evangélico a rezar connosco, uma muçulmana, católicos dos mais diversos caminhos e carismas, todos aqui juntos para tentar que estas mães não caiam neste sofrimento profundo que é saber que marcaram a hora da morte de um filho.

Rezam dentro ou fora da casa?
É um evento visível. Deixamos tudo muito à liberdade das pessoas. Já passaram aqui centenas de pessoas e todas têm estilos diferentes. Há pessoas que nos disseram logo que não querem rezar na rua. A casa foi-nos cedida pelas Mãos Erguidas e fica mesmo em frente à clínica. Está sempre de porta aberta e vê-se lá para dentro. Mas há quem não goste de rezar nas escadas cá fora, porque a sua sensibilidade não o permite, outros gostam de rezar cá fora, mais perto possível da clínica. Deixamos ao critério de cada um.

A oração que se reza mais é o terço, até se reza o Terço de Raquel, mais própria para os recém-nascidos. Mas este rapaz evangélico, por exemplo, junta-se a nós e reza outras coisas.

Ao longo de 40 dias temos cá pessoas das 08h às 22h. Gostávamos que fossem 24h mas já foi complicado o suficiente garantir estas 16h. Cada pessoa fica responsável por um turno de duas horas, não quer dizer que tenha de ficar cá as duas horas mas tem de se responsabilizar por ter cá pessoas durante essas duas horas.

Hoje estamos no dia 18 de 40, para o resto dos 22 dias, que houvesse uma família responsável por cada um desses dias e arranjasse quem esteja cá essas 16 horas, a organização ficava mais tranquila e podia-se chegar a mais gente. Há muito mais gente do que pensamos que gosta de rezar e pessoas que gostariam de rezar e já pensaram em sair de si mesmos para rezar por alguém e não sabem como, aqui há espaço para todos e podem vir ter connosco. Se se quiserem inscrever pela internet podem, se quiserem só aparecer também podem.

Que reacções têm?
Eu não estou cá o tempo todo, mas há pessoas que ficam incomodadas. Pessoas que vão à clínica e vêem isto provavelmente ficam incomodadas, outras ficam tocadas. Há de tudo. O que sei é que a oração é um fim em si mesmo. Mesmo que nenhuma mulher desistisse de abortar, nem nenhum profissional desistisse do seu trabalho, já teria valido a pena porque a oração é um fim em si mesmo, não precisamos que tenha nenhum efeito visível. Mas a verdade é que Nosso Senhor tem sido muito sensível e estamos muito agradecidos por isso e têm acontecido coisas muito boas.

Alguma história que possa partilhar?
Por respeito à privacidade das pessoas com quem lidamos, não vou contar nenhuma história das passadas aqui, mas há uma história de Abby Johnson, uma ex-directora de clínica de abortos da Planned Parenthood nos Estados Unidos. Ela foi durante nove anos directora da clínica e agora é das maiores activistas pró-vida que existem. Ela atribui isto às campanhas dos 40 dias que se organizaram durante anos à porta da clínica dela. As pessoas rezavam todos os dias por ela, estavam ali em turnos. Ela só dirigia a clínica, era psicóloga e não fazia abortos. Uma vez pediram para ela conduzir uma ecografia, porque estavam com falta de pessoal, e ela viu pela primeira vez como era um aborto, através da ecografia, e com tanta oração que tinha havido por ela, e todos os contactos que tinham tido com ela, deu a volta completamente.

Aprendi muito com esta história e temos todos que aprender com este aspecto, porque ela diz que isto não é tudo branco e preto. Não há por um lado os pró-escolha e do outro os pró-vida. Há pessoas boas, eu acredito que há mesmo pessoas boas na clínica, que estão convencidas que estão a ajudar as mulheres. Ela estava convencida que estava a ajudar as mulheres em dificuldades e percebeu que nem toda a gente que está do outro lado são más pessoas, provavelmente não estão esclarecidas, e esta oração que fazemos é também por estas pessoas, rezamos pelos profissionais que trabalham nas clínicas, para ver se se dão conta da realidade.

A pressão para abortar, com a crise, deve ser ainda maior. Tem algum recado para essas pessoas?
Acho que um bebé não vai aumentar a crise. Estamos na crise independentemente do bebé vir ou não. Os grandes homens e as grandes mulheres na história vêem-se nos momentos difíceis. A pior crise que pode haver, mais do que a crise de não haver dinheiro ou emprego, é a crise em que as mulheres saem numa angústia e numa tristeza profundas depois de passarem por uma situação destas. Isso é que é muito mais difícil de ultrapassar. Também tem cura, mas é mais difícil de ultrapassar. Dizemos sempre às mulheres, no aborto há um morto e um ferido. Há um bebé que não nasce mas há uma mãe que fica ferida para sempre. Mais cedo ou mais tarde essa mulher vai ter esse sofrimento. Isso é que é uma grande crise. De resto o bebé até pode complicar as coisas, mas não é isso que vai colocar os pais numa situação ainda pior.

Há aqui pessoas que oferecem ajuda às mulheres que vão à clinica…
Isso não tem nada a ver com a iniciativa dos 40 dias. O trabalho que se faz aqui, a associação Mãos Erguidas é feita com voluntários, quantos mais houver, melhor, o que fazem é oferecer às mulheres ajuda. A verdade é que nenhuma mulher quer abortar, nem nenhuma mulher que sai daqui a dizer que já passou por isto várias vezes e que é indiferente… não é indiferente. O erro muito comum é que as pessoas pensam que vêm aqui e depois de abortarem voltam a ser quem eram antes, porque já resolveram o problema, tiraram aquilo que as incomodava. Uma mulher, depois de engravidarem nunca mais volta a ser a mesma, quer tenha um bebé, porque nos tornamos mães de um filho, quer não deixemos a criança nascer, embora venha aqui e aparentemente possa sair com alívio, a angústia vai depois ser muito maior. Pode não ser logo, mas eventualmente nota-se.

O que se tenta fazer aqui é, sempre com o suporte da oração, porque sabemos que é Deus quem move o coração das pessoas, é tentar oferecer às pessoas alternativas e para isso as Mãos Erguidas colaboram com uma série de instituições de apoio à grávida, porque não é só estar aqui a dizer Às grávidas para não abortarem, temos de nos preocupar com os problemas delas e dar apoio. Vão a um médico nosso amigo que as vê a preço zero do princípio ao fim da gravidez, ajuda-se com enxovais, fraldas, legalização. Toda essa ajuda é dada, embora já fosse muito só dizer a uma mulher para ficar com o seu filho, não pode ser só assim, porque há pessoas que vêm aqui em situações muito complicadas.

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